Ao estampar na capa de seu novo livro de poemas a palavra celacanto, peixe que é considerado um fóssil vivo por representar espécies extintas há dezenas de milhões de anos, Thiago Ponce de Moraes convoca os leitores para uma reflexão sobre o tempo do fazer poético, ou melhor, sobre a persistência da vida — e da poesia — num tempo hostil. Note-se, ainda, que o título-peixe permite ouvir o nome de Paul Celan, poeta fundamental para o autor, e também canto, um dos vários nomes da poesia. Dividido em sete partes, Celacanto cobre um arco vasto e coeso de questões. Vasto, sim, porque os poemas movem-se entre o amor, a chegada dos filhos, a partida dos avôs e de um amigo, a escrita, a escuta, o silêncio. Mas todas essas indagações estão lançadas no abismo do presente, em que o porvir se afunda. Não é por acaso que todas as seções, desde seus títulos, são marcadas pela temporalidade (A pré-história dos sentidos, Depois da colisão, O tempo da peste, A eternidade mantém-se nos limites, Demorar-se no sonho dos bichos, Uma data em cada mão e Antes). O poeta é hóspede do instante, mas quer saber o que persiste em tudo que se transforma, e busca, em cada verso, fazer um furo/ no futuro/ lançar uma bomba/ ao futuro. Por isso, a convocação para que o celacanto, um peixe contra a lógica do tempo, desvende aquilo que insiste em nós (somos nosso próprio fóssil?). Por isso, descascar as palavras para ver o que elas escondem, o que arrastam do passado. Por isso, manter-se vivo, manter a poesia viva em meio A fúria obscura/ da passagem do tempo.
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