O Enigma De Daniela
O Enigma De Daniela
Benoit, Lelita Oliveira
A retirada de um tumor do cérebro de uma mulher se embaraça, nesta narrativa, como criminoso desastre de automóvel sofrido por outra: águas me cercaram até a alma, o abismo me rodeou, e as algas se enrolaram na minha cabeça. É como se, pelos hábeis dedos do neurocirurgião (que alinhavam o fio de acaso entre ambas), suas histórias se enredassem, se enovelassem, a ponto de compor este romance de vidas, essas 36 Linhas que as costuram. Enquanto a segunda mulher (vítima de lesão medular) perde a mobilidade, a outra (recuperada, com a potência do seu sopro vital) lhe cede A voz, e, com ambas as mãos, juntas, constroem a muralha da sua resistência e do seu alerta ao mundo. Mas não suponha o leitor que este é um livro de autoajuda. Ao contrário, trata-se de um volume que pede ajuda! E é de tudo que o romance se compõe: de pedras, pedacinhos, retalhos, atalhos, desenhos de todos os tipos – pedregulhos. É um Muro de Lamentações onde, em cada interstício entre as palavras, um a um dos componentes desse enredado acontecimento enfia (esconde?) o seu minúsculo papel, a sua mensagem, o seu recado, o seu pedido, a sua prece: o seu enigma. Todos interligados (amarrados entre si como num cipó de floresta amazônica) no mesmo Shoah. Daí o hibridismo desta obra, composta por toda a sorte de contribuições ficcionais, que pedem auxílio e apelam para que sejam preenchidas com o que o leitor puder lhes achegar com o cimento da sua experiência. São narrativas de lendas, de cenas dolorosas diálogos internalizados, matéria jornalística, relatórios improvisações jazzísticas, poemas entrevistas, suposições, depoimentos notas ao pé da página, filosofia, história, crítica social, psicanálise, literatura religião. Misticismo em todos os sentidos. E o mérito que ela vai ganhando não é só porque nos põe direto em contato com a inaudita e inimaginável dimensão do que cabe aos tetraplégicos, daquilo que lhes antecipou a tragédia ou que lhes sobreveio a tal infortúnio – e isso não é possível medir em éfas. É que, por meio da magia de tal miscigenação literária, do envolvimento íntimo com o leitor, a escrita de Lelita Benoit expõe uma evidência de difícil deglutição. Que nada ou ninguém neste nosso território – muito menos alguma instituição (seja a Medicina, a Educação, os Seguros Sociais, a Justiça, o Trabalho – e, sobretudo, a consciência discriminadora das pessoas) está minimamente preparado para oferecer cidadania a alguém tocado por tal desdita. Encarcerados nos próprios corpos, eles (e nós com eles) se tornam (de novo) vítimas do simulacro pós-moderno de um disfarçado Holocausto. Mephisto, Jonas, Alice do País das Maravilhas, o Tarô, a Torá, os Fundos, as Peregrinações, os Médicos, os Advogados, os Professores, os Videntes, as Matrioskas, os Descaminhos, Kafka, Freud, Borges, Amós Oz – todos se misturam como ingredientes para uma tal de torta de legumes, capaz de nos fazer regurgitar de indignação. Porque (com muita delicadeza, sabedoria e poesia), mostram a amarração em feixe (a imobilidade!) a que estamos submetidos. A narradora palpita ou se abstém (sem critério fixo: a vida é um sistema espúrio!) permeia e se deixa atravessar pelas outras vozes, nessa missão que é o Livro – de maneira a reconstruir a sua própria cabeça, seu próprio eixo. Em hebraico bíblico, Deus é o Nome, aquele que erige o Universo com letras e números: o Alfabeto. Pois as Linhas a serem lidas precisam do concurso de muitas letras outras, de muitos de nós – de todos! E, de preferência, da nossa excelsa liberdade para interpretá-las. Maria Lúcia Dal Farra
Livro recomendado para literatura, leitura, conhecimento, educação, aprendizado, cultura e desenvolvimento pessoal.
Uma obra que desperta interesse e novas perspectivas sobre o tema.
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